sexta-feira, 19 de junho de 2015

O Oceano Onde Dorme a Canção



 Vou escrever uma canção para nunca mais falar de você. Nem cantar essa canção, nem murmurar essa canção, nem lembrar dessa canção. Eu vou jogar essa canção da janela e ela vai cair rápido, vai cortar  cèu, despencar no horizonte montanhoso e afundar no oceano que banha a distância dos nossos universos. Um oceano tem muita água. E eu preciso parar de beber.



 Eu sai para comprar cigarros e não deveria ter voltado. Esse lugar é pequeno mas é tão fácil de se perder que todos diriam a principio "Que rapaz  mais burro!” mas no fundo saberiam que voltar para casa às vezes pode demorar mais do que apenas o caminho que se toma todos os dias.
Eu não deveria ter voltado para casa, subido as escadas e ver que ela ainda dormia exausta no sofá. Eu deveria ter ido fumar na varanda ou me escondido no quarto. Eu deveria ter me jogado no rio. Eu deveria ter ido a outra festa. De uma hora pra outra todos os pensamentos se tornaram um labirinto estranho onde eu não sabia quem eu era e as minhas certezas não enchiam nem uma pequena gaveta do que um dia fora um arquivo muito bem organizado de mim mesmo. Eu não me reconhecia e tinha ainda as minhas pernas meio moles, por isso, talvez, tenha voltado pra casa.




Eu vesti o meu casaco xadrês e sai no vento, eu não me lembro de antes ter visto meu corpo pedir descanso daquela forma. "Eu sou um furacão que os outros adoram." Um amigo me disse uma vez. Eu sou um furacão, e quem gosta disso? De que me serviu até hoje ser um furacão ? Tenho mais ferrões do que abelhas ao meu redor.  Eu queria muito acender um cigarro, impossível. Naquela confusão de vento, folhas secas e cabelo eu tentei achar o caminho para casa e fiquei vagando pela cidade. Eu precisava tomar um bom banho e tirar de mim todos os cheiros dos vícios que não salvam a alma de ninguém. Andei mais um pouco até acabar adormecendo à beira do rio. Ninguém viu. Eu dormi  como se estivesse lendo um livro.




As coisas são muito piores quando se é jovem o suficiente para não saber lidar com elas. Ou quando se tem a cabeça lotada de hipocrisias confortáveis. Naquela noite jogaram um espelho diante de mim. E eu vi que não era ninguém. Quando pegar o avião de volta para o colo feliz da minha casa, eu não vou ser mais aquele que me chamam pelo nome. O bom filho, o bom marido, o bom o que? Eu sou bom em quem e quem sou eu? Eu queria que minha cabeça me desse uma resposta e ela fosse facilmente entendida. Eu dormi a tarde toda exausto, na minha própria cama, depois que ela se foi. Eu dormi a tarde toda no meu cobertor quentinho, meu travesseiro cujo cheiro era familiar, mas que merda! Merda de festa, merda de vida. Eu acordo assustado às vezes por que sinto como se houvesse uma boca muito próxima dos meus ouvidos  chamando meu nome, mas não é nenhuma voz conhecida, eu acordo com a visão de duas pernas abertas convidativas e eu não quero, aquilo me deixa enjoado e eu não sei por que, não deveria ser assim, eu gosto de pernas e mulheres convidativas e deveria dar valor a meia dúzia de pernas que se abrem quando eu passo pelas festas, mas ao invés disso eu sento e tento não estar cabisbaixo. As coisas não deveriam ter esse tamanho, deveriam ser menores. Eu deveria ser maior que tudo isso. E não consigo saber nem o tamanho de mim mesmo.




Eu sou um furacão, e via de regra furacões fazem estragos na vida das pessoas. Levam as casas, levam as vidas, as certezas. Um furacão nunca pode ser divertido, por que tira você do seu eixo, está sempre repleto de coisas que não lhe pertencem, passou por dezenas de vidas e carregou consigo coisas que não deveria. Eu cansei de ser um furacão, de tirar as pessoas do chão, de mudar as certezas de lugar por que mesmo que com isso muitas vezes se varra toda hipocrisia para fora, mesmo assim, as pessoas te odeiam e não admitem que o fazem. Tem-se por hábito vigiar furacões e não segui-los. As pessoas me observam por que é divertido. Mas ninguém quer tirar os pés do chão comigo, um furacão nunca é bem vindo.



Eu vou dormir e muitos dias vão se passar e tudo que ela me disse vai fazer cada vez mais sentido e isso é tão terrível quanto se me amputassem um membro. De uma hora para outra talvez eu  me torne o ser humano que eu espero que eu seja.  Ou continue adormecido no colo macio da hipocrisia aos vinte um, dois, três, trinta e cinco ou cinquenta. Eu não quero ver a nudez a qual ela me expôs. Eu queria que as coisas fossem mais simples. E como não posso eu finjo que elas são. 


Eu vou escrever uma canção dessas que ninguém pode tocar e nunca mais ninguém vai falar no seu nome. Eu vou escrever uma canção completa que nenhum instrumento vai tocar, nenhum soprano vai cantar. E ela vai jazer lá embaixo do oceano, coberta de areia e azul. Como quando está amanhecendo e a luz é turva. E nós vamos fingir que essa hora, essa noite, essa vida, jamais aconteceram. As coisas podem ser simples, mas eu não sei (quero) fazer. Dorme em paz.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Uma Crônica Muito Autobiografica


á Deusdite, que me ensinou que dentro é oceano e mergulhar é a solução....




Eu entendo todos os fantasmas perfeitamente. Em vida já não é fácil abandonar o que quer que seja. E quando já não há vida, quando ninguem te ouve, a angustia cresce e te cerca por todos os lados. Não tendo você mais corpo, o que paira é sentimento, que sem boca nem arte, não se expressa. Só vaga.  Às vezes chora na madrugada. Às vezes lança-se contra as paredes da casa. Arrasta grilhões imaginários enchendo de medo os corredores. Mal sabemos.  Eu entendo os fantasmas. Por que não abandonamos nem o que é ruim se o tomamos como nosso. E o ruim fica sendo bom por que é nosso. Não é bom mas possuimos.
Eu fechei os olhos no quarto ainda escuro . A noite dura pouco e o corpo tampouco descansa  nessa época do ano. Puxei o cobertor. Quando deixei uma vida que um dia tivera deixei assuntos não resolvidos em meu encalço e talvez seja essa a razão da persistencia dos meus sonhos. Uma casa, a minha casa, repleta deles perambulando pelos cômodos. Tudo gelado e eu rezando pelos cantos tentando expulsá-los. Minha casa povoada de fantasmas que eu mal poderia caminhar dentro dela sem trombar um baú velho aberto jogado na sala, um livro comido de traça no banheiro, uma foto amarelada sobre a mesa. Eu fechava os olhos ia para minha casa: Lotação: repleta.Todos nós lá dentro. Eu viva. Os outros mal enterrados pelo tempo.
Fechei os olhos e comecei a contar as horas para os primeiros raios de sol começarem a me roubar o descanso pela janela do quarto, eu nunca entenderei como podem a natureza e as pessoas descansarem com noite tão curta aqui em cima. Apenas quatro horas para deitar, pensar sobre o universo, concluir que nada sei, brigar violentamente contra isso e me deixar corroer vagarosamente pela certeza da pequenez por alguns minutos até minhas palpebras pesadas me vencerem finalmente. 
Você sentou na minha frente, embaixo das árvores, na mesa de ferro. Escurecia e chovera há pouco. Tudo umido e azul, algumas luzes do natal passado ainda teimavam em ficar piscando e fazer desenhos estranhos e longinquos nas árvores. Você encostou sua testa na minha e eu pude ver seus olhos turvos frente aos meus, as mãos na mesa de ferro enegrecida pelo tempo. "Você vai me dizer exatamente tudo que voce tem pra dizer!" bradou. Eu não parei para pensar na estranheza do seu ato e acabei te vestindo de uma dignidade que nunca foi tua. Grata pela oportunidade me levantei e gritei todas as palavras ruins que já foram ditas por todas bocas amarguradas que já passaram por esse planeta. As que existem e as que ainda se inventarão. E depois, me sentei, vazia. Não se tratava disso, então? Todas as palavras ruins gritadas aos ventos não resolveram. Eu ainda estava cheia de fantasmas pela minha casa, caminhando de um lado pelo outro, me tirando a paz pelas madrugadas.
Voce não pareceu convencido. De braços dados caminhamos pelo jardim fresco da chuva de há pouco, as folhas escuras, as flores roxas, abri a boca e quis engolir a aura de novidade que tomava aquelas já antigas paragens. Caminhamos pelos arredores da casa antiga. Eu estranhei a passividade com a qual aquela conversa se dava. "Não tinha você um cão de guardas armado até os dentes a me morder os calcanhares caso eu me aproximasse?" Perguntei e você "Não há com o que se preocupar...".  E antes que eu dissesse qualquer coisa voce completou "No final eu só queria te dizer que eu me importo. Eu sei o que se passou com você.  E sei que está tudo bem agora, mas eu entendo. Estou passando pelo mesmo caminho que voce já fez." Voce me ofereceu um café, eu não tomei. Saímos da casa ainda caminhando calmamente, desviamos do penhasco de onde, do outro lado, os conhecidos mestres nos acenavam. Acenamos de volta.
Na curva do caminho, sentada numa flor de lotus, sorria uma moça bonita, me deu um aceno terno, nem de longe parecia a sombra a protagonizar meus pesadelos em tantas noites em que nem precisei dormir para que eles, os pesadelos, viessem me assombrar. "Como foi possivel para voce conseguir fazer isso? Trocar as peças, as pessoas, as vidas, por outras peças, pessoas e vidas assim, impunemente, sem que nenhuma ressalva caísse sobre seus ombros?" Você agora caminhava a minha frente, talvez incapaz de olhar o próprio erro de frente, acelerava o passo "Isso já não tem mais nenhum sentido, não importa mais. As coisas não foram assim e se um dia foram... Bem agora também tenho meus próprios fantasmas." E então eu parei a caminhada. Você foi para algum outro lugar, sumiu, e o jardim se tornou turvo e se tornou claro e ainda mais claro e a luz do sol inundou minhas pálpebras.
Abro os olhos e estou exausta de emoldurar as pessoas da minha biografia em heróis e vilões como num romance de enredo pobre que se compra em banca de jornal. Cansada de subestimar minha audiência com um retrato unilateral das minhas narrativas. É preciso exorcisar, sem gritos histericos de pastor, um por um dos meus demônios pessoais que só ganharam tal alcunha após meu próprio julgamento impetuoso. O presente que os anos trazem é tornar as pessoas mais inteligiveis diante dos olhos. Inclusive eu mesma. E deixar ir.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Menina

     O cheiro de mofo a trouxe de volta a consciência e os olhos foram então se acostumando com a penumbra abafada. Foi dando conta de si aos poucos, a pele melada de suor  e a tentativa de reconhecer aquele lugar. Forçou os olhos, tentando ver melhor. Aquelas paredes lhe soaram familiares a principio, mas depois dissipou a ideia, achou-a esdruxula. A boca seca pedia água .
     O papel de parede amarelado descascava pelas paredes mofadas, levantou-se com cuidado, vestiu-se. Movia-se devagar apesar da pressa. Temia acordá-lo. De barriga pra cima ele roncava alto e ela mal lhe lembrava o nome, algo com ph, como ele mesmo frisara a noite passada.
"Ele poderia ter me matado." pensou, como se todos os outros não pudessem ter feito o mesmo antes, olhou as mãos brancas em repouso sobre a barriga  avantajada. 
  Arrastou-se como um felino até a porta, as sandálias na mão. A maçaneta enrijecida ao toque, trancada. Um arrepio cortou-lhe o corpo todo de assalto, ele poderia te-la matado mas não o fizera. Não ainda. Riu de si mesma, não era primeira vez e decerto não seria a ultima que teria aquele tipo de rotina. Provavelmente o aspecto decrepito do quarto lhe causasse o horror. Numa casa antiga daquelas era de se esperar que as coisas emperrassem, mas oras bolas.
 O homem cujo nome tinha ph virou-se na cama. Ela hesitou. Depois caminhou até o banheiro de pequenos azulejos azuis claros. No espelho fungos comiam o reflexo do sol forte lá de fora. Abriu o armarinho. Uma escova de dentes velha, pasta de dentes endurecida, grampos de cabelo enferrujados. Saiu do banheiro, tentou a porta novamente. Trancada. 
O homem cujo nome tinha ph moveu-se novamente na cama, dormia pesado, o esforço na noite anterior somado ao álcool garantiam que sua estadia fosse demorada nos braços de morpheu.
Passou os olhos em revista deveria ter alguma chave por ali, talvez ele fosse só mais um velho neurótico a trancar as portas todas com medo de ladrões. Ao lado da cama um criado mudo de madeira escura, abriu a gaveta com cuidado, ali nada além de um laço de fita amarelado que talvez  fora cor de rosa no passado, alguma mulher passara por aquele canto e esquecera para sempre seu adorno, mas que coisa, há muito tempo mulheres não usavam mais laços de fita, nem mesmo as meninas, o homem de nome com ph tinha muitos anos de idade, isso sabia, mas ele também o tinha, como queria sair dali...
Esperar o homem acordar não estava nos seus planos, olhou  novamente ao redor, pensativa, quando deu-se conta do quadro na cabeceira da cama. Grande e desbotado, a moldura fosca como uma lápide, por trás do mofo e da traça, uma menina sentada num balanço numa paisagem que facilmente se encontra adornando um calendário. Aproximou-se. E então viu que a menina no balanço parecia chorar copiosamente. Que coisa de mal gosto quadro de criança chorando! Resolveu checar novamente o criado mudo. Não se deu conta da primeira vez mas uma navalha jazia ao lado do laço de fitas, num reflexo guardou-a consigo,  nunca se sabe, a porta continuava trancada. Jurou para si mesma que nunca mais iria a casa de ninguém, tantos motéis pela cidade e ela fora se enfiar justo ali? Com cuidado olhou os bolsos das calças que o homem usara na noite anterior que ainda jaziam num canto do chão. Nada. 
    Na parede o quadro, aquela criança chorando no balanço lhe embrulhava o estomago, não combinava aquela menina triste com aquele jardim bonito, a menina devia ter onze anos no máximo, os olhos estavam agora tão nítidos, eram tão vividos, mas choravam. Tentou limpar-lhe as lágrimas, quando viu chorava também, recuou, precisava ir embora, forçou a porta, dessa vez sem cerimonias "Tentando me abandonar, pantera?" ela se virou assustada  "Não, é que precisava ir embora, a porta emperrada..." as lágrimas da menina e o susto. "Que estranho..." ele levantou-se, a carne rosada, estendeu-lhe a mão "Venha belezinha!" e ela deu a mão para ele e voltou para a cama, mas a menina no quadro, oh céus, quantas lágrimas , o homem de nome com ph beijou-a com gana, mas ela não queria mais, a menina chorava e suas lágrima pingavam da moldura na parede e molhavam a cama, tornando os lençóis pesados e os beijos carregados, as lágrimas caiam no chão molhando o assoalho de madeira, as lágrimas enchiam o quarto, infantes e desperdiçadas, na casa vazia o que se ouvia era só o barulho das gotas d'água caindo e enchendo o mundo de pranto, e tudo tornou-se pesado e rançoso, e então lembrou-se da navalha (as gotas insistentes caiam encobrindo o murmurio da menina no balanço) e então lembrou-se da navalha. Empurrou o homem "O que há com voce ?" ele perguntou,a voz soou longe porque mais alto iam os murmurios da menina que chorava ali tão perto, ela tirou a navalha , abriu e agora o pranto que inundava a casa tornava-se vermeho de sangue e gordura. o homem cujo nome tinha ph caiu sem vida ao seu lado. e tudo cessou num silencio denso.
O barulho da agua cessara. olhou o teto, ainda deitada , as taboas corroidas de cupins. Levantou-se, lavou as mãos na pia pequena do banheiro de azuejos azuis. 
aproximou-se do quadro na parede, a menina era agora só mais uma menininha sorridente se divertindo em seu balanço. beijou o quadro, pegou a bolsa e saiu. O sol forte la fora doeram os olhos, passou pelo jardim ressequido da casa, uma rua de subúrbio. Caminhou até em casa. Mais um domingo somente. 
  Foi coisa de dois ou três dias depois que os jornais da região noticiaram a morte do homem com ph, que se dera em circunstancias misteriosas. nenhum suspeito. Nada além da estranha coincidência, o homem morto da mesma forma que matara a enteada quarenta anos antes. 










 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Amor de Pai II

"As my life flashes before my eyes I'm wondering will I ever see another sunrise? So many won't get the chance to say goodbye, but it is too late to think of the value of my life..."


O Isaac nunca ficou muito tempo no seminário, por que acabaram concluindo por lá que ele não tinha vocação nenhuma, caso perdido apenas tentar convencer o pai dele disso. Conversamos duas vezes. Os olhos ferozes e fervorosos, "Não, não se contraria Deus!", mas deus para ele era a própria opinião.
  Ao Isaac ele nunca disse que a mãe biológica aparecera anos depois atrás de notícias, mas o próprio Isaac descobriu por si só porque ouviu uma conversa dos dois pelo telefone. Preferiu calar-se fingir que não sabia de nada, desde pequeno sabia que com seu pai só se concordava, a mãe biológica ate então não fizera falta, só começou a sentir o peso da obrigação do seminário depois dos doze anos.
Quando voltava das compulsórias incursões no seminário voltava também ao colégio e a vida normal, as meninas olhavam os olhos azuis marinho não sem uma certa desconfiança, era bonito, dançava até muito bem também, mas elas preferiam os malvados. Enquanto isso, eu sempre buscando entre a barulhenta massa uniformizada um olhar do rapaz que nas tardes quentes aparecia no meu apartamento tomando uma coca e falando freneticamente das coisas do seu dia, eu ouvia, tomava nota, tomava coca, fazia amor.
Foi quando começou a chuva. Aquele céu plúmbeo e muita água, descendo pelas calhas, eu fui levá-lo ate o portão, acabara de escurecer, era tão cedo, meu prédio era pequeno e não tinha porteiro, eu fui levá-lo ate o portão, ele andava mais cabisbaixo por que definitivamente iria embora, decidira uma dia antes, ia embora sim para qualquer lugar que fosse, aquela idéia que toma de assalto sempre as crianças, de fugir de casa e ser dono das decisões, quanta inocência, não podia mais conviver com o pai, que o queria para si tão egoísta, só faltava fazê-lo ajoelhar no milho, fora de si...
Eu me despedi dele discretamente, vá com Deus Isaac, tire da cabeça essa ideia de fuga, é bobagem, você sabe, fique bem, senão por você, por mim, eu me preocupo, na verdade era puro complexo de Édipo, eu só percebo isso agora, mas não me importa mais, por que só importa é que era, foi, bonito, ou não, foi.
Ele ia embora, atravessar a rua na bicicleta e veio o carro , ele era ainda um homem jovem , as mãos grandes segurando o volante, então era isso, era fúria, ele decerto o seguira, viu o beijo, aquilo não foi nada, ele já não pode afirmar nada, por que se perdeu no tempo a fúria da voz que gritava que o filho estava perdido antes de acelerar o carro, Isaac hipnotizado apenas deixou-se ficar onde estava, o motor roncou alto assim como o pneu no atrito com asfalto, o carro avançou sobre ele, arremessando seu corpo para o meio da rua e batendo num poste logo a frente e desde então os segundo viraram seculos. 
      O carro virou sucata e me vi estranhamente de fora, como se fosse outra pessoa lendo o que se passava, eu estrangeira de mim mesma, olhei o cadáver dentro do carro nunca me importei tão pouco com uma pessoa como naquele momento.
A chuva continuava agora bem fraca, um sereno, parada onde estava vi Isaac procurar conforto com os olhos pueris desesperados por respostas. E o silencio. 
Fui sentando-me no portão, a cabeça entre os joelhos, dando tudo na vida para jamais ter visto nada, para ter nascido cega. Mas mesmo que a cegueira agora me atingisse de nada adiantaria por que já havia visto tudo e a única memória da luz que me restaria seria essa. Com a cabeça entre os joelhos eu fiquei até me tirarem dali, apática e presa num eterno replay. Com a cabeça entre os joelhos eu não quis ter mais nada. Não quero mais lembrar. Tenho que voltar para minha casa, tenho que tentar fechar os olhos e dormir, por que agora a chuva parou de vez, a rua molhada reflete os postes, ainda está ali a lata de coca cola, no criado mudo, é melhor que limpem logo a rua, limpem o mundo, que eu preciso dormir. E que amanhã se enterrem três mortos.

Amor de Pai I

“ Ele poderia muito bem ter pelo menos dezenove. Dezoito que fosse.  Pelo menos dezoito, meu Deus, para não ser tão mal. Dezoito para não soar tão ruim...”

Eu ainda olhei a chuva cair . Ela insistia há uma semana. Eu queria morrer, como em tantas outras vezes o quis, tantas vezes que morrer virou tão banal que pareceu pouco, talvez eu quisesse só deixar de ter visto as coisas, talvez isso fosse ainda maior que morrer. 
As cadeiras, as mesas, os pôster de campanha, endereços de ongs nas paredes e as pessoas. Pessoas e mais pessoas. Transitavam de um lado para o outro os homens fardados, seguravam a burocracia na prancheta como se fossem a cura do cancer, do meu lado uma travesti acendeu um cigarro "Raça ruim do caralho!" murmurou.
Eu sorri. O estado criara mesmo uma raça de humanos de pouca ou nenhuma sensibilidade ( a sensibilidade que havia decerto de ser um defeito posto que nos torna vulneráveis, seres humanos que não sentem não se findam e eu ali já me via escorrendo ralo abaixo, como resto de água de banho) e no final a lei me parecia cada vez mais transformar o mundo numa enorme pré escola onde não podia mais nem mesmo ter poder sobre meus próprios pulmões, se assim os quisesse destruir, segregando-me aquela varanda imbecil por cinco intermináveis minutos até o filtro se queimar entre meus dedos. O frio aumentava.
E se eu dissesse que não havia visto nada, ninguém me acreditaria, afinal de contas eu estive  lá, não estive, de frente para ele? Eu não vi os olhos piscarem freneticamente antes de irem embora? Sabe Deus que oceano eu teria de engolir para conseguir esquecer aquela cena. 
         Todos os dias eu ia até o Colégio ouvir os alunos e os problemas que eles tem, por que os adolescentes têm sempre os mesmos problemas, os pais tem um pouco de preguiça de contar pras crianças como funciona o mundo e as pobres crescem achando que casamento dura pra sempre e só se é feliz se os pais não se separam. Mas quando bate a meia idade e todos resolvem virar tão adolescentes quanto os próprios filhos, a coisa vira um caos, mas o problema do Isaac era diferente por que o pai dele nunca tinha se casado, ele era adotado, deixaram o menino na porta da igreja, o pai era sacristão, ministro e diácono e tudo o mais que se pode ser , encontrou a criança e adotou. Uma fila beatas caridosas logo se formou na porta de sua casa, dispostas a ajudar o pobre homem solitário a criar o meninote, Isaac era filho do pai e da paróquia. Amém.
 Isaac que não entendia das coisas, nascido ontem, via recair sobre si as mais sublimes previsões, era a semente plantada de um popstar da fé, o próximo a vender milhões de discos e arrebatar fiéis. Ele não parecia estar muito feliz com isso, na verdade até gostava de cantar e tinha mesmo uma voz boa, apesar da idade de seus tropeços hormonais. 
Eu as vezes sonhava que ele tinha vinte anos. Vinte e dois. E dormia em paz. Mas sua ficha escolar na minha não por tantas vezes não me deixava sequer uma ilusão, ele tinha dezessete, mal completos dezessete anos.
       O homem saiu na porta e me chamou, já fui disposta a não lhe contar nada, minha vida não era da conta de ninguém já não bastava o que ainda haviam de falar de mim por ai, jornais baratos explorariam o caso como hienas famintas, tão claro saber, capaz de ser linchada.
Eu disse, eu era psicóloga, quer dizer, fazia o estágio no colégio, nós ficamos muito próximos, isso é comum nesses casos, o senhor sabe bem. Não havia nada demais, eu apenas o estimulava a seguir seu próprio caminho, essas coisas que os seres humanos tem direito, a própria vida a decidir entende?
O delegado obviamente não entendeu e foi direto ao ponto. Olhei para ele durante alguns segundos antes de responder . Ele não tinha nada de parecido com os de filme, tinha um cheiro bem forte de suor por sinal, o que eu não daria para sair correndo dali no meio da chuva?
Não senhor, eu menti, esse é o mais perfeito absurdo, nós nunca tivemos nada. Isso é apenas especulação. O pai dele tinha sérios distúrbios, criou uma realidade paralela, nunca houve nada que pudesse ultrapassar as barreiras do aceitável entre mim e aquele garoto.
Mentira, mentira, mentira. Houve uma , duas e três e assim seriam infinitas vezes até que nos fartássemos de sermos felizes, e a culpa parasse de me corroer, foram muitas as vezes e ainda seriam outras. E como era dor pura dizer que não haveriam mais de ser. 
 O homem pareceu não convencido com minha negativa, mas também não se preocupou muito com isso, afinal de contas não havia muito que fazer naquele caso. Perguntou-me sobre o pai. Ele também sabia que ele era louco. E agora não havia duvida alguma, o pai agira por puro desespero ante a decepção, tem gente que não lida bem com isso, eu já disse, acabar com a realidade que acreditamos ser a ideal é um rombo enorme. Enorme... Ele via o filho fazendo sermões paras multidões, cantando para fiéis em transe catártico. Um popstar sagrado pode-se dizer assim...Eu morreria de rir se alguém viesse me contar e não tivesse acontecido comigo.Continuei:
- Vocês tem bons psicólogos, vão chegar a bons resultados. Eu não tenho mais nada a dizer, senhor, se me permite ir embora, estou exausta, preciso descansar tenho negócios a cuidar, se é que o senhor me entende.
Ele consentiu, eu terei que voltar diversas vezes ali ainda, mas se tem uma coisa que nunca fiz foi cair em contradição, muito se falará ao vento,mas nada se fará, bons antecedentes, me culpar pelo que? Breve todos se convencerão que eu realmente era apenas uma amiga preocupada e não uma pedófila, corruptora de menores.Case closed.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Sobre o Caos Emocional do Meu Fim de Semana ou da Minha Síndrome de Linus



Nos primeiros meses de vida, graças à atenção e aos cuidados maternos que recebe, o bebê imagina que ele e sua mãe são um ser único. Com a passagem dos meses, ele vai se dando conta de sua individualidade e percebe essa divisão. Mais que isso: descobre que a mãe nem sempre está presente para saciar suas necessidades e, por isso, acaba buscando em um objeto para essa fase de transição o apoio de que precisa, especialmente na hora de dormir. Esse objeto é o que psicólogos chamam de "objeto de transição". O mais famoso é o cobertor do personagem Linus, da Turma do Charlie Brown. Enfim.

Quem me conhece mais intimamente sabe que tenho um cuidado muito especial com a minha cama. Meu quarto geralmente está uma zona, mas minha cama impecável, nunca nem sento na minha cama sem tomar banho e trocar de roupa antes, meu cobertor sempre cheirosinho. Meu cobertor Parahyba, aquela mantinha de lã com beirinhas soltas na ponta, com a qual eu dormia todas as noites, mesmo sob um calor de 35 graus, tão recorrente em Taubaté. Eu, com 27 anos ainda dormindo toda noite com meu objeto de transição, obvio que era zoada pelos meus amigos e pelo Lucas ( e provavelmente serei por você que me lê!).
Bom, essa semana roubaram o carro do Lucas. Fomos num pub tomar uma breja e quando voltamos o carro não estava mais lá. Muita coisa minha dentro do carro. Um par de sapatos, estojo de maquiagem, meu livro do Gregório Duvivier e.... Caramba, meu cobertor de beirinhas. Eu adulta, liguei pra policia, fui até a delegacia com o Lucas, o necessário e depois.... Sentei e chorei. Mas chorei igual eu chorava quando ficava de castigo. Fiz um bico enorme e fiquei coçando os olhos enquanto o mar de lagrimas vertia dos meus olhos. Minha mãe ria do meu jeito de chorar na infância por que era muito exagerado (ah vá!) e provavelmente se ela tivesse me visto, teria rido de novo.Eu já não chorava assim desde de os anos 90 quando menstruei e achei por bem que não era mais criança e que se meu nariz já era grande em meu estado normal, melhor evitar lágrimas para inchá-lo. 
Seguros seguram carros, casas e até bumbum de Panicat, mas não tem seguro pra objeto de transição e mesmo se houvesse, que dinheiro paga meu cobertorzinho velho? To chorando escondida desde sábado, a mercê do julgamento alheio ("Mas cade a mulher feroz que se banca, põe a cara pra bater, se mete em manifestações cheias de bombas da policia? Chorar por um cobertor , me poupe!"). Pois eu concordo com todos vocês. Sou besta mesmo. Perdi meu cobertor, dormir ficou vazio. 
Ainda houve uma esperança quando a policia ligou ontem de madrugada dizendo que haviam localizado o carro. Mas ao abri-lo, não havia nada dentro. Compreensível que se leve embora o sapato, a maquiagem, o livro. Mas que cargas d'água estão fazendo com meu cobertor esses bandidos? Quem rouba objeto de transição não é bandido, traficante, ou whatever. Quem rouba objeto de transição são malvados fanfarrões com aquelas mascaras , boina e camisa listrada. O Bicho Papão, ou sei lá, o Boideia (um monstro que eu mesma inventei na primeira infância e de quem tinha um medo feroz!) Malvados, malvados! Com isso, não vejo nenhuma diferença entre meu pranto e o das crianças que ajudei a adaptar no maternal esse ano.
Esses dias morreu o Bolanhos. E o que se viu foi uma onda de adultos infantilizados aos prantos nas redes sociais. Morre o Chaves e fica a estranha sensação tipo quando seu amigo se muda para outra cidade e você não tem mais com quem brincar. No fundo somos todos iguais. Eu ainda vou chorar mais um pouquinho pelo meu objeto de transição (apesar dos meus pais terem prometido me dar um igualzinho de Natal, nunca vai ser a mesma coisa), mas você com certeza fez fila no Mc Donald's pra comprar um bonequinho do Super Mário, estamos no mesmo barco. No fundo, todo mundo só quer um um pedaço da infância de volta de vez em quando. Do contrário Sérgio Mallandro não estaria tão na moda. 




































quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Mesa Antiga

Um frio miserável. Subiu a alameda arborizada e passou os portões. A cidade era agora um borrão amarelado, parecia toda suja.  Viu de longe Lola acenando, um alivio " Que saudade de você, Angela!Veio finalmente buscar seu diploma?" riu a amiga "Ele não me faz a menor falta. Pode usar ele de papel toalha no banheiro feminino, as arvores agradecem." Caminharam pelos corredores amadeirados. Lola riu, abraçou a amiga. Sabia o motivo da visita repentina "Você vai realmente fazer isso?" "Vou. Laura tem quinze anos, completou mês passado. Nunca me perguntou nada a respeito, para ela sempre foi tudo muito natural. Um alivio ela não querer fazer festa, essas coisas pedem tradições inúteis, não queria grilos na cabeça da menina, ela quis ir a Disney com umas amigas, achei justo, ela foi. E eu vim por que achei justo ele saber as coisas que aconteceram." sentaram-se numa mesa da cantina. Lola pegou um café " Ele não é a melhor das pessoas, você sabe disso, aliás, o tempo só tratou de piorá-lo...." "Ora me conte uma novidade." "Novidade? Ele é chefe do departamento agora." "Essas paredes devem transpirar ética ." Lola riu  "Até tinha esquecido que essa palavra existia." E então calou-se abruptamente. Cumprimentou com sorriso amarelo uma mocinha muito pálida e magra, de cachecol e cabelos revoltos. " Se eu te contar quem é essa figura..." "De quem se trata?" " É nosso primeiro lugar na prova do mestrado.  Mas se duvidar não consegue colocar letras em ordem alfabética, coitada, dei aula pra ela em duas cadeiras, foi muito complicado..." "E como pode essa pessoa ter chegado no mestrado? Aliás, você aprovou essa guria como?" Lola sorriu sarcástica "Esse instituto é uma ilha cercada de ética por todos os lados, lembra? " " Favorecimentos existem desde que o mundo é mundo pelos mais variados motivos." "Nesse caso o motivo é o apreço imenso que nosso chefe de departamento tem por ela."  Por que uma coisa daquelas não a surpreendia?  "Na verdade" continuou Lola " É bom que você saiba. Talvez você queira dizer a ele a verdade sobre Laura, mas pense bem antes, por que ter esse tipo de sujeito de volta na sua vida talvez não seja das melhores opções. Ele está respondendo dois processos por assedio sexual. Duas alunas, uma delas caloura, menor de idade. Foi muito sério... E abafado, claro. " Ângela sorriu fitando na janela o horizonte montanhoso  "Isso só me dá certeza de que tomei a atitude mais acertada sumindo daqui." "Você ainda quer dizer a verdade?" "Sim." "Olha, Laura é uma moça linda, você fez um bom trabalho, se me permite dizer, não jogue fora os últimos 15 anos." Mas não se tratava de jogar fora o que quer que fosse. Se tratava de justiça. Ele não poderia mais inocentar-se diante de si mesmo por não ser presente, por não saber a verdade. O fato de não ter lhe contado antes apenas servia para fazer com que ela mesma também inocentasse toda a ausência que ele fora nos últimos anos e não era certo, nem justo continuar com aquilo. Sabia que poucas coisas mudariam na verdade, ou talvez nada. Ele costumava ser indiferente com o que representasse impedimento ao progresso do caminho que traçara para si, pulverizando como uma praga qualquer o que lhe servisse de barreira. Mas, ainda assim, era justo que soubesse sobre Laura pois agora seria consciente de sua própria ausência. "Não se trata de jogar fora, enfim, tenho minhas razões." Lola soltou um suspiro resignado " Ele está lá em cima na sala dele. Esse horário está sozinho, a fulana que passou pela gente já terminou o serviço por hoje, esse cara é tão sistemático que tem hora marcada até pra ganhar boquete!" depois corou por que não era dada a falar essas coisas, mas não resistira a piada. Ângela sorriu para Lola e viu nela uma iminência de cabelos brancos no canto direito da testa "Oh céus. " e lá fora a neblina se dissipava conforme  o sol subia. Subiu as escadas de madeira. Bateu na porta. "Pois não." ele disse lá de dentro com aquela mesma voz mediana. Abriu. Ele obviamente  levou um tempo até conseguir saber que se tratava de Ângela. Levantou-se "Mas... Mas ora, que coisa... Você por aqui! Mas que ventos a trazem depois de tanto tempo...?" ela não respondeu. Enquanto ele soltava palavras sem sentido e perguntas sobre ela e seus motivos, ela abriu a bolsa com cuidado e tirou de dentro um envelope branco. Jogou em cima da mesa "O que é isso?" ele ainda perguntou " Eu não vou ficar aqui para te ouvir duvidar da verdade" ela disse enquanto ele tirava de dentro do envelope as fotos de uma menina que lhe pareceu amedrontadoramente familiar  "Na verdade você vai ver que a natureza foi  generosa com ela, apesar de ter essa sua mesma cara ela tem muito pouco de seu gênio. Enfim, não há como duvidar, é sua. A ignorância foi um álibi pra você até hoje. Agora não é mais. Faça o que quiser com isso." e saiu dali com a mesma placidez que entrou, seus olhos enjoavam só de ver aquele rosto, desceu as escadas e se perguntou como semelhante criatura poderia ter resultado numa moça tão boa quanto a própria filha. 
Ele, por sua vez, sentado frente aquelas fotos só conseguia pensar em como Ângela havia engordado . Riu sozinho "O tempo acaba com as pessoas mesmo" e, sem obviamente olhar-se no espelho, recolheu as fotos e jogou-as na gaveta. E lá elas ficaram até  ele ser promovido a diretor do instituto e ter de mudar-se para uma sala maior, e consequentemente, mudar-se para uma mesa maior. Levou consigo para a nova mesa maior apenas um cinzeiro de mármore e um porta papéis com o brasão da universidade. A antiga mesa foi doada para uma Escola Estadual no subúrbio, com suas gavetas e seus velhos papéis.