terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Amor de Pai I

“ Ele poderia muito bem ter pelo menos dezenove. Dezoito que fosse.  Pelo menos dezoito, meu Deus, para não ser tão mal. Dezoito para não soar tão ruim...”

Eu ainda olhei a chuva cair . Ela insistia há uma semana. Eu queria morrer, como em tantas outras vezes o quis, tantas vezes que morrer virou tão banal que pareceu pouco, talvez eu quisesse só deixar de ter visto as coisas, talvez isso fosse ainda maior que morrer. 
As cadeiras, as mesas, os pôster de campanha, endereços de ongs nas paredes e as pessoas. Pessoas e mais pessoas. Transitavam de um lado para o outro os homens fardados, seguravam a burocracia na prancheta como se fossem a cura do cancer, do meu lado uma travesti acendeu um cigarro "Raça ruim do caralho!" murmurou.
Eu sorri. O estado criara mesmo uma raça de humanos de pouca ou nenhuma sensibilidade ( a sensibilidade que havia decerto de ser um defeito posto que nos torna vulneráveis, seres humanos que não sentem não se findam e eu ali já me via escorrendo ralo abaixo, como resto de água de banho) e no final a lei me parecia cada vez mais transformar o mundo numa enorme pré escola onde não podia mais nem mesmo ter poder sobre meus próprios pulmões, se assim os quisesse destruir, segregando-me aquela varanda imbecil por cinco intermináveis minutos até o filtro se queimar entre meus dedos. O frio aumentava.
E se eu dissesse que não havia visto nada, ninguém me acreditaria, afinal de contas eu estive  lá, não estive, de frente para ele? Eu não vi os olhos piscarem freneticamente antes de irem embora? Sabe Deus que oceano eu teria de engolir para conseguir esquecer aquela cena. 
         Todos os dias eu ia até o Colégio ouvir os alunos e os problemas que eles tem, por que os adolescentes têm sempre os mesmos problemas, os pais tem um pouco de preguiça de contar pras crianças como funciona o mundo e as pobres crescem achando que casamento dura pra sempre e só se é feliz se os pais não se separam. Mas quando bate a meia idade e todos resolvem virar tão adolescentes quanto os próprios filhos, a coisa vira um caos, mas o problema do Isaac era diferente por que o pai dele nunca tinha se casado, ele era adotado, deixaram o menino na porta da igreja, o pai era sacristão, ministro e diácono e tudo o mais que se pode ser , encontrou a criança e adotou. Uma fila beatas caridosas logo se formou na porta de sua casa, dispostas a ajudar o pobre homem solitário a criar o meninote, Isaac era filho do pai e da paróquia. Amém.
 Isaac que não entendia das coisas, nascido ontem, via recair sobre si as mais sublimes previsões, era a semente plantada de um popstar da fé, o próximo a vender milhões de discos e arrebatar fiéis. Ele não parecia estar muito feliz com isso, na verdade até gostava de cantar e tinha mesmo uma voz boa, apesar da idade de seus tropeços hormonais. 
Eu as vezes sonhava que ele tinha vinte anos. Vinte e dois. E dormia em paz. Mas sua ficha escolar na minha não por tantas vezes não me deixava sequer uma ilusão, ele tinha dezessete, mal completos dezessete anos.
       O homem saiu na porta e me chamou, já fui disposta a não lhe contar nada, minha vida não era da conta de ninguém já não bastava o que ainda haviam de falar de mim por ai, jornais baratos explorariam o caso como hienas famintas, tão claro saber, capaz de ser linchada.
Eu disse, eu era psicóloga, quer dizer, fazia o estágio no colégio, nós ficamos muito próximos, isso é comum nesses casos, o senhor sabe bem. Não havia nada demais, eu apenas o estimulava a seguir seu próprio caminho, essas coisas que os seres humanos tem direito, a própria vida a decidir entende?
O delegado obviamente não entendeu e foi direto ao ponto. Olhei para ele durante alguns segundos antes de responder . Ele não tinha nada de parecido com os de filme, tinha um cheiro bem forte de suor por sinal, o que eu não daria para sair correndo dali no meio da chuva?
Não senhor, eu menti, esse é o mais perfeito absurdo, nós nunca tivemos nada. Isso é apenas especulação. O pai dele tinha sérios distúrbios, criou uma realidade paralela, nunca houve nada que pudesse ultrapassar as barreiras do aceitável entre mim e aquele garoto.
Mentira, mentira, mentira. Houve uma , duas e três e assim seriam infinitas vezes até que nos fartássemos de sermos felizes, e a culpa parasse de me corroer, foram muitas as vezes e ainda seriam outras. E como era dor pura dizer que não haveriam mais de ser. 
 O homem pareceu não convencido com minha negativa, mas também não se preocupou muito com isso, afinal de contas não havia muito que fazer naquele caso. Perguntou-me sobre o pai. Ele também sabia que ele era louco. E agora não havia duvida alguma, o pai agira por puro desespero ante a decepção, tem gente que não lida bem com isso, eu já disse, acabar com a realidade que acreditamos ser a ideal é um rombo enorme. Enorme... Ele via o filho fazendo sermões paras multidões, cantando para fiéis em transe catártico. Um popstar sagrado pode-se dizer assim...Eu morreria de rir se alguém viesse me contar e não tivesse acontecido comigo.Continuei:
- Vocês tem bons psicólogos, vão chegar a bons resultados. Eu não tenho mais nada a dizer, senhor, se me permite ir embora, estou exausta, preciso descansar tenho negócios a cuidar, se é que o senhor me entende.
Ele consentiu, eu terei que voltar diversas vezes ali ainda, mas se tem uma coisa que nunca fiz foi cair em contradição, muito se falará ao vento,mas nada se fará, bons antecedentes, me culpar pelo que? Breve todos se convencerão que eu realmente era apenas uma amiga preocupada e não uma pedófila, corruptora de menores.Case closed.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Sobre o Caos Emocional do Meu Fim de Semana ou da Minha Síndrome de Linus



Nos primeiros meses de vida, graças à atenção e aos cuidados maternos que recebe, o bebê imagina que ele e sua mãe são um ser único. Com a passagem dos meses, ele vai se dando conta de sua individualidade e percebe essa divisão. Mais que isso: descobre que a mãe nem sempre está presente para saciar suas necessidades e, por isso, acaba buscando em um objeto para essa fase de transição o apoio de que precisa, especialmente na hora de dormir. Esse objeto é o que psicólogos chamam de "objeto de transição". O mais famoso é o cobertor do personagem Linus, da Turma do Charlie Brown. Enfim.

Quem me conhece mais intimamente sabe que tenho um cuidado muito especial com a minha cama. Meu quarto geralmente está uma zona, mas minha cama impecável, nunca nem sento na minha cama sem tomar banho e trocar de roupa antes, meu cobertor sempre cheirosinho. Meu cobertor Parahyba, aquela mantinha de lã com beirinhas soltas na ponta, com a qual eu dormia todas as noites, mesmo sob um calor de 35 graus, tão recorrente em Taubaté. Eu, com 27 anos ainda dormindo toda noite com meu objeto de transição, obvio que era zoada pelos meus amigos e pelo Lucas ( e provavelmente serei por você que me lê!).
Bom, essa semana roubaram o carro do Lucas. Fomos num pub tomar uma breja e quando voltamos o carro não estava mais lá. Muita coisa minha dentro do carro. Um par de sapatos, estojo de maquiagem, meu livro do Gregório Duvivier e.... Caramba, meu cobertor de beirinhas. Eu adulta, liguei pra policia, fui até a delegacia com o Lucas, o necessário e depois.... Sentei e chorei. Mas chorei igual eu chorava quando ficava de castigo. Fiz um bico enorme e fiquei coçando os olhos enquanto o mar de lagrimas vertia dos meus olhos. Minha mãe ria do meu jeito de chorar na infância por que era muito exagerado (ah vá!) e provavelmente se ela tivesse me visto, teria rido de novo.Eu já não chorava assim desde de os anos 90 quando menstruei e achei por bem que não era mais criança e que se meu nariz já era grande em meu estado normal, melhor evitar lágrimas para inchá-lo. 
Seguros seguram carros, casas e até bumbum de Panicat, mas não tem seguro pra objeto de transição e mesmo se houvesse, que dinheiro paga meu cobertorzinho velho? To chorando escondida desde sábado, a mercê do julgamento alheio ("Mas cade a mulher feroz que se banca, põe a cara pra bater, se mete em manifestações cheias de bombas da policia? Chorar por um cobertor , me poupe!"). Pois eu concordo com todos vocês. Sou besta mesmo. Perdi meu cobertor, dormir ficou vazio. 
Ainda houve uma esperança quando a policia ligou ontem de madrugada dizendo que haviam localizado o carro. Mas ao abri-lo, não havia nada dentro. Compreensível que se leve embora o sapato, a maquiagem, o livro. Mas que cargas d'água estão fazendo com meu cobertor esses bandidos? Quem rouba objeto de transição não é bandido, traficante, ou whatever. Quem rouba objeto de transição são malvados fanfarrões com aquelas mascaras , boina e camisa listrada. O Bicho Papão, ou sei lá, o Boideia (um monstro que eu mesma inventei na primeira infância e de quem tinha um medo feroz!) Malvados, malvados! Com isso, não vejo nenhuma diferença entre meu pranto e o das crianças que ajudei a adaptar no maternal esse ano.
Esses dias morreu o Bolanhos. E o que se viu foi uma onda de adultos infantilizados aos prantos nas redes sociais. Morre o Chaves e fica a estranha sensação tipo quando seu amigo se muda para outra cidade e você não tem mais com quem brincar. No fundo somos todos iguais. Eu ainda vou chorar mais um pouquinho pelo meu objeto de transição (apesar dos meus pais terem prometido me dar um igualzinho de Natal, nunca vai ser a mesma coisa), mas você com certeza fez fila no Mc Donald's pra comprar um bonequinho do Super Mário, estamos no mesmo barco. No fundo, todo mundo só quer um um pedaço da infância de volta de vez em quando. Do contrário Sérgio Mallandro não estaria tão na moda. 




































quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Mesa Antiga

Um frio miserável. Subiu a alameda arborizada e passou os portões. A cidade era agora um borrão amarelado, parecia toda suja.  Viu de longe Lola acenando, um alivio " Que saudade de você, Angela!Veio finalmente buscar seu diploma?" riu a amiga "Ele não me faz a menor falta. Pode usar ele de papel toalha no banheiro feminino, as arvores agradecem." Caminharam pelos corredores amadeirados. Lola riu, abraçou a amiga. Sabia o motivo da visita repentina "Você vai realmente fazer isso?" "Vou. Laura tem quinze anos, completou mês passado. Nunca me perguntou nada a respeito, para ela sempre foi tudo muito natural. Um alivio ela não querer fazer festa, essas coisas pedem tradições inúteis, não queria grilos na cabeça da menina, ela quis ir a Disney com umas amigas, achei justo, ela foi. E eu vim por que achei justo ele saber as coisas que aconteceram." sentaram-se numa mesa da cantina. Lola pegou um café " Ele não é a melhor das pessoas, você sabe disso, aliás, o tempo só tratou de piorá-lo...." "Ora me conte uma novidade." "Novidade? Ele é chefe do departamento agora." "Essas paredes devem transpirar ética ." Lola riu  "Até tinha esquecido que essa palavra existia." E então calou-se abruptamente. Cumprimentou com sorriso amarelo uma mocinha muito pálida e magra, de cachecol e cabelos revoltos. " Se eu te contar quem é essa figura..." "De quem se trata?" " É nosso primeiro lugar na prova do mestrado.  Mas se duvidar não consegue colocar letras em ordem alfabética, coitada, dei aula pra ela em duas cadeiras, foi muito complicado..." "E como pode essa pessoa ter chegado no mestrado? Aliás, você aprovou essa guria como?" Lola sorriu sarcástica "Esse instituto é uma ilha cercada de ética por todos os lados, lembra? " " Favorecimentos existem desde que o mundo é mundo pelos mais variados motivos." "Nesse caso o motivo é o apreço imenso que nosso chefe de departamento tem por ela."  Por que uma coisa daquelas não a surpreendia?  "Na verdade" continuou Lola " É bom que você saiba. Talvez você queira dizer a ele a verdade sobre Laura, mas pense bem antes, por que ter esse tipo de sujeito de volta na sua vida talvez não seja das melhores opções. Ele está respondendo dois processos por assedio sexual. Duas alunas, uma delas caloura, menor de idade. Foi muito sério... E abafado, claro. " Ângela sorriu fitando na janela o horizonte montanhoso  "Isso só me dá certeza de que tomei a atitude mais acertada sumindo daqui." "Você ainda quer dizer a verdade?" "Sim." "Olha, Laura é uma moça linda, você fez um bom trabalho, se me permite dizer, não jogue fora os últimos 15 anos." Mas não se tratava de jogar fora o que quer que fosse. Se tratava de justiça. Ele não poderia mais inocentar-se diante de si mesmo por não ser presente, por não saber a verdade. O fato de não ter lhe contado antes apenas servia para fazer com que ela mesma também inocentasse toda a ausência que ele fora nos últimos anos e não era certo, nem justo continuar com aquilo. Sabia que poucas coisas mudariam na verdade, ou talvez nada. Ele costumava ser indiferente com o que representasse impedimento ao progresso do caminho que traçara para si, pulverizando como uma praga qualquer o que lhe servisse de barreira. Mas, ainda assim, era justo que soubesse sobre Laura pois agora seria consciente de sua própria ausência. "Não se trata de jogar fora, enfim, tenho minhas razões." Lola soltou um suspiro resignado " Ele está lá em cima na sala dele. Esse horário está sozinho, a fulana que passou pela gente já terminou o serviço por hoje, esse cara é tão sistemático que tem hora marcada até pra ganhar boquete!" depois corou por que não era dada a falar essas coisas, mas não resistira a piada. Ângela sorriu para Lola e viu nela uma iminência de cabelos brancos no canto direito da testa "Oh céus. " e lá fora a neblina se dissipava conforme  o sol subia. Subiu as escadas de madeira. Bateu na porta. "Pois não." ele disse lá de dentro com aquela mesma voz mediana. Abriu. Ele obviamente  levou um tempo até conseguir saber que se tratava de Ângela. Levantou-se "Mas... Mas ora, que coisa... Você por aqui! Mas que ventos a trazem depois de tanto tempo...?" ela não respondeu. Enquanto ele soltava palavras sem sentido e perguntas sobre ela e seus motivos, ela abriu a bolsa com cuidado e tirou de dentro um envelope branco. Jogou em cima da mesa "O que é isso?" ele ainda perguntou " Eu não vou ficar aqui para te ouvir duvidar da verdade" ela disse enquanto ele tirava de dentro do envelope as fotos de uma menina que lhe pareceu amedrontadoramente familiar  "Na verdade você vai ver que a natureza foi  generosa com ela, apesar de ter essa sua mesma cara ela tem muito pouco de seu gênio. Enfim, não há como duvidar, é sua. A ignorância foi um álibi pra você até hoje. Agora não é mais. Faça o que quiser com isso." e saiu dali com a mesma placidez que entrou, seus olhos enjoavam só de ver aquele rosto, desceu as escadas e se perguntou como semelhante criatura poderia ter resultado numa moça tão boa quanto a própria filha. 
Ele, por sua vez, sentado frente aquelas fotos só conseguia pensar em como Ângela havia engordado . Riu sozinho "O tempo acaba com as pessoas mesmo" e, sem obviamente olhar-se no espelho, recolheu as fotos e jogou-as na gaveta. E lá elas ficaram até  ele ser promovido a diretor do instituto e ter de mudar-se para uma sala maior, e consequentemente, mudar-se para uma mesa maior. Levou consigo para a nova mesa maior apenas um cinzeiro de mármore e um porta papéis com o brasão da universidade. A antiga mesa foi doada para uma Escola Estadual no subúrbio, com suas gavetas e seus velhos papéis.











segunda-feira, 10 de março de 2014


“Vá se descobrir...Vá crescer, entender e saber... ”

Chegara dois dias antes e mesmo da janela do carro vislumbrou, não sem certo encantamento, a cidade. Era sempre mais bonita de noite. Mas a casa do amigo cheirava passado, por que o charme era só de quem não conhecia as entranhas das vielas geladas, de quem jamais fora pedra, de quem jamais fora barro, de quem jamais fora ouro, veludo, espelhos. O charme era de quem não conhecia nada, o charme já não contava. Era linda a cidade. Ela sabia. Mas a casa do amigo cheirava passado e cigarro mal apagado. As pedras nas janelas já gastas. Muita gente e ninguém. Fugiram todos. Sumido o sal do mundo, nem cor nem cheiro, água morna. "Nem goteiras temos mais. Precisava ir logo embora desse lugar” ele coçou a barba ruiva . Ela sorriu "E eu precisava voltar . Fechar essa porra desse ciclo, inútil, aberto, arreganhado essa ferida de pedra.” “Caralho, você não é fácil. Eu se fosse você tinha ficado lá pelas suas bandas que era melhor. Vê bem, melhor pra você, não pra mim, que eu de te ver estou bem contente. Por que está bem, por que eu também posso ficar. Bem. Mas não aqui." Ela riu e se retirou. Já era tarde. O quarto, a cama, os travesseiros, todos cheirando a mofo, um cheiro agudo. Adormeceu contando os passos das assombrações no corredor.

“Aliviando desespero pra adiar o sofrimento...”

Iam então dois dias que já estava ali, fumavam no átrio de uma igreja vazia, fechada, o barulhos dos ônibus ao longe, o vento cortando a pele. A cidade lá trás escurecia cinzenta. “E se nada acontecer e você ver tudo e todos, e ir a todos os lugares e assim mesmo continuar a mesma e você voltar pra casa como veio?” Uma brasa caiu na manga do suéter fino. Assoprou-a. A lãzinha rósea tinha agora um buraco pequeno, cinzento  “Isso não vai acontecer, que só de estar aqui já foi mudança das grandes, eu volto maior. Enorme.” 
A igreja fora o primeiro lugar vislumbrado quando pisara pela primeira vez as pedras lisas da cidade. E já ia mais tempo do que gostaria de admitir. Todos esses anos e as portas da igreja sempre trancadas. Nunca ninguém ali.

“como se eu fosse nada...”

No outro dia o tempo melhorou, o sol de água morna, estava no átrio da igreja, outra, que jazia esquecida atrás da irmã mais imponente. Dessa vez estava sozinha (o amigo fotografava um grupo de turistas japoneses ao longe, só por diversão). Envolta no burburinho alegre das crianças a empinar suas pipas, havia o tumulo há séculos na porta da igreja, limpou o mato e a poeira vermelha, viu um nome cravado na pedra, um nome e nenhuma lembrança, quem sabe não era ela mesma enterrada ali, num passado ou vida distante, quem diria que não?Andou pouco aquele dia, o folego não permitia estripulia. Quase 30, um maço por dia, nos anos ruins foram mais, agora nem precisava tanto. Na volta, viu os precipícios do caminho, quantos não despencaram aquelas ribanceiras?, chegou na casa, o amigo fazia um café “ A festa é mais tarde” ele ainda disse. Ela tomou banho e foi a festa. As cores, por sua vez,  prefiram ausentar-se. O cheiro de tinta fresca sobre o mofo  não disfarçava a podridão gelada de sempre. Seus próprios olhos eram ausência, constatou. Sem decepções voltou para casa e ao perceber que não tinha mais consigo lembrança alguma, chorou aliviada por duas horas. Estranhou o silencio no corredor. (Assombrações se foram ou apenas dormiram?Já era tarde de qualquer forma.)

“Agora tudo é seu.”

Era de tarde novamente quando pegou o táxi, na porta o amigo despedia-se “Essa cidade é pouco de Deus. Quem sai bem chora a saudade. Quem sai mal lamenta angustia . E quem fica... Bem,eu fiquei. Mas já vou indo também. Encontro você qualquer dia nos meios dos carros e das avenidas. Que a fumaça de óleo queimado queime minha angustia do passado.”
Mal sabia ele que a fumaça a queimar suas angustias era a da querosene. O avião o levou para longe, o táxi a fez voltar pro presente.  O amanhã era bem mais feliz.











segunda-feira, 22 de julho de 2013

Conversa com a Diva

- Existem coisas que eu não sei mas sinto que deveria. E eu não imagino por que elas me ocorrem. Se eu deveria sabe-las e não sei é por que ainda talvez não seja a hora de sabe-las e sabe-las agora só me deixa  angustiada. Eu não sei por que ainda acho que irei me sentir em plena paz, essa não sou eu, tem coisas apenas que me sugam a energia. É da personalidade ou do signo, sabe-la, a gente nasce com essas coisas que não mudam por que é o que mantém a gente de pé (ou derrubam mais rápido), o que chamam de personalidade. Imutável, como quando se cava em terra e chega numa pedra, dali não passa, dali não muda. E as coisas que eu deveria saber e não sei ao certo surgem como vultos imbecis a me sugar vitalidade.
- Eu não acho que saibamos mais do que deveríamos, não acredito mesmo. As coisas que nos chegam vem na hora certa. Você vai aprendendo a lidar com elas, noticias boas ou ruins. Tente ser mais concreta. O abstrato não te responde coisa alguma, só gera mais pergunta, o que de fato você quer saber?
- Você não é gente, entende de abstração?
-Não, nada. E isso é bom, vocês humanos se auto destroem com abstrações, o que será que será? Você já viu algum cachorro cantar Chico Buarque?
- Não, obvio que não.
-Por que o que será não nos interessa nem um honorável pouquinho.
-Mas não é uma existência sem graça, pequena pra vocês mesmos?
-Viu como você gosta de pensar demais? É bem o que você disse, pensa demais, overthink everything. Existe essa expressão?
-Deve existir. Mas eu digo que...
- Eu digo que quero é que vá direto ao ponto finalmente, o que não sabe mas sente que deveria?
-São suposições oras bolas, de atos e pessoas, de atos com pessoas.
- Os atos das pessoas não são possíveis de se controlar, não á pra colocar coleira por mais bonitinha que seja, e sair controlando os seres humanos. vou te contar um segredo. Vocês também não controla os cachorros desde que nós descobrimos a chantagem emocional pra cachorro isso é super ok, mas pra humanos é patético,  que fique claro.
- Por que afinal eu não posso mais confiar em ninguém sossegadamente?
- Você pode mas não consegue.
- Eu posso, mas não consigo, olha que bobagem.
- Bobagem mesmo. Não tire conclusões a toa. Pare de supor as coisas e me jogue a bolinha. 



quarta-feira, 20 de março de 2013

O Ultimo Sinal

   Viu sair do céu nublado um raio de sol tímido mostrando um relance de céu azul e mesmo assim não atentou pro que viria. É que o tempo levara embora todas as referências, tão antigas quanto algumas fotos amareladas de máquinas a filme, dessas que cheiram a nostalgia apenas pela simples menção. Entrou na igreja, como já fora de praxe, e  ia ajoelhando-se quando viu num canto tal inesperada presença, conversando com o padre, compenetrado, a voz grave, lembrou-se depois do relance de céu azul, era isso. Era esse o sinal.
( por que  mesmo se fora o dia mais cinza
 se o sol lhe saia ( tão timido) 
sabia
da esquina viria
inesperado
surgia
numa doce rotina
de não combinar )
  Ele a vira também e já vinha, os braços abertos, o mesmo rosto infantil (mas não eram mais de dez os numero de anos que se passaram desde a ultima vez?) e a saudação alegre na forma de seu nome ( como quando ela descia do ônibus na rodoviária, recém chegada das Gerais).
      Ela o abraçou também, e tudo  vivo, fora do lugar, mas dentro da cabeça ( como pode espaço tão pequeno guardar tanta coisa?), julgou-se errada por estar tão feliz. "Eu vim rezar..." disse, e ele por sua vez "Eu vim trazer minhas alianças para o padre abençoar. Vou me casar em breve.". E a noticia causou-lhe jubilo. Jubilo! Estranhou a si mesma depois sorriu. O próprio dedo lhe gritava o por que do sentimento inadequado. Já não fazia sentido importar-se quando o destino se encarregara de colocar em seu dedo o mais bonito dos aneis. "Eu também me casarei! Em breve!" celebrou
  E não deixava de estranhar aquela aparência imutada, aquele semblante infantil, pois as noticias que recebera dos amigos incomum  chegaram contando que ele engordara alguns quilos, estava calvo, tornara-se homem enfim, e agora aquela cara de menino? Algo estava fora do lugar concluiria depois, não se encaixava. Não parecia possivel, mas era, afinal de contas, ele não estava ali?
  "Eu tenho ainda algumas coisas suas..."  ele disse e tirou do bolso duas fotografias dela, em preto e branco , um lenço rosado e um vidrinho de perfume "Estavam comigo, precisava devolver..." ela olhou aquelas coisas e viu que eram mesmo dela, mas antes dele falar ela sequer lembraria que estavam perdidas, sumiram, claro, ela nem soubera como, mas estavam de volta, ele as guardara o tempo todo, mas se o encontro fora inesperado então por que ele levava tudo aquilo no bolso?
       A igreja tinha as paredes pintadas e os vitrais coloridos, sairam juntos dali e ganharam a rua, ele repetiu "Estou te devolvendo. E estou feliz em te ver de novo..." Ela não entendia por que tão feliz em ter aquelas bugigangas de volta e menos ainda em vê-lo casar-se ( Era como se ele se fora de vez.  Ele não mais dela e mais que isso, ela não mais dele. Lembrou-se do próprio noivo, tão sorridente e piegas, ele trouxera as coisas belas de volta.). Caminharam um pouco em silencio e sorriso. Abraçaram-se novamente. Despediram-se. Ele seguiu seu caminho de um lado. Ela foi seguir o dela de outro. Eram seis e trinta e cinco.

quarta-feira, 13 de março de 2013

A Adorável Vida de Catarina - Espelho, Espelho Meu...

 A Catarina  fez escova progressiva e achou que ficou bonito, mas como não basta apenas isso, ela teve que entrar em crise existencial. Muito embora as pessoas dissessem que estava bonito o cabelo, ela se perguntou quanto daqueles elogios eram sinceros e ai ficou estranha. Olhou-se no espelho de soslaio e achou seu nariz grande. Inconformada, perguntou pelas ruas. "Meu nariz é  grande?" E todos negaram, como não viam? A coisa podia ser muito, muito pior que pensava. E se fosse feia? Jamais saberia!!!
    Quando se é bonito fala-se a respeito, mas quando se é feio, enfim, ninguém tem coragem de te contar a verdade (a menos que você seja uma criança malvada querendo irritar  o coleguinha da escola, mas sempre tem algum adulto perto pra te iludir de novo e dizer que é mentira). Quantas vezes não dissera inverdades desse tipo pras pessoas? Oh céus,  será que fora enganada uma vida inteira?
   Desde pequena vira a mãe se derretendo em elogios e na adolescência teve alguns admiradores. Mas, tem gosto pra tudo nessa vida, o Restart não tá cheio de fã? Como saber a verdade?  Como, como,como? Por que o que via no espelho não era a realidade mas uma ideia que fazia de si mesma e mesmo que perguntasse aos amigos mais sinceros eles também não diriam, então não saberia, e dai a duvida. Daí o dilema, daí o problema.
  E não se tratava de auto estima. Se tratava da agonia do não saber. Não saber se feia, e se feia, não saber o grau de intensidade da feiura que podia estar escondido por detrás de sua ilusão. Podia tanto ser daquelas feinhas, que de maquiagem  viram  atrizes do Wolf Maia, quanto feia mesmo, de fazer figuração em filme de presídio. 
    Tinha horror dos extremos, todos sempre ruins. Ser extremamente bonito devia causar suas duvidas: "Quem se aproxima de mim realmente quer meu espirito, corpo, alma e coração? Ou só me exibir por ai e se aproveitar do meu corpo nú?". Já o muito feio também deveria ter seus conflitos,  como sair na rua sem assustar os transeuntes? Assumir a feiura que lhe é idiossincrática  ou render-se finalmente ao Pintangui ? O extremamente rico também se questiona "Gostam de mim por que sou dono da Google ou por que tenho boas piadas?" O muito pobre, por sua vez, não tem conflito, por que os únicos que gostam dele é a fome e o Celso Portiolli e se tivesse algum conflito existencial provavelmente já o teria devorado há semanas com farinha, por que não tá fácil pra ninguém essa vida!
    No final das contas, sem saber da verdade encasquetou que era inteligente e assumiu certo ar de sarcasmo quando via alguém que julgava bonito na rua. Por que a beleza, assim como a feiura, eram ilusões. Só a inteligencia salvaria a humanidade. Chegou em casa e assistiu matrix.