terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

70 virgens

                  Estava de fato um sol escaldante por aqueles dias pelo simples fato de que ninguém mais estava de férias para poder aproveitar o calor. Ela ainda olhou pro teto e pensou"São Pedro esse sádico..." e o ventilador continuou rodando por horas a fio. Ventiladores não se cansavam mas era muito chata aquela história de não fazer nada, por que nem mesmo ao ócio contemplativo poderia dedicar-se. Paredes e mais paredes e mais paredes pintadas (pensou na musica do Legião, mas há tempos que Renato Russo perdera a graça ).
                  E assim, então pensara, melhor quieta do que mal acompanhada, não era do tipo que mexia com ninguém.  Olhou as unhas, ainda eram três da tarde pensou um palavrão depois abriu de novo a maldita rede social que hipnotiza e transforma qualquer ser humando em escravo zumbi da nova postagem alheia.
              O mundo mudara muito pouco desde que explodiram alguma partículas num passado não muito distante. Pois que gostaria tremendamente de trabalhar de roupas mais confortáveis, talvez um biquini, mas o patrão não permitia e tampouco comprava ar condicionado para aquelas paredes ficarem menos quentes.  "Acabaremos todos sofrendo combustão espontânea..." pensou enquanto cogitou ir até onde estava a bolsa e pegar um cigarro. Desistiu. A bunda já tomara o formato a cadeira, estava presa ali como a madrasta da Xuxa em Lua de Cristal no final do filme.
         E o mundo mudara muito pouco mesmo desde que resolveram decorar cavernas com desenhos de animais, por mais que insistissem em dizer que não. Pois não mudara nada e tampouco ela também, torcendo por ai pra ser arrastada pelos cabelos pelo primeiro neanderthal que aparecesse. E tanto queimou-se sutiã em praça publica...uma pena, uma pena, uma pena. 
         "Toda mulher é idiota!" Comeu um chocolate e pensou em putaria, o mundo mudara era nada! Aliás se havia uma coisa, apenas uma única coisa que mudara naquele trem todo era cabeça das mulheres, que ia de mal a pior, os anos iam passando, o fim do mundo ia chegando e todas iam ficando cada dia mais burras, era tão lindo de se ver...
             As redes sociais ficavam um tédio no calor, assim como frio, e todo mundo é muito legal na rede social.  E o bonitinho lavando a louça fazendo pose como se fosse um favor a humanidade "Ei, sou um homem fazendo serviço de mulher!" dizia sem precisar falar e as burras todas achando aquilo lindo, por que somos cada dia mais burras, puta que pariu! mas achou bonitinho também.
          Pois que se queimaram sutiãs, greves de fome foram feitas, assim como passeatas e manifestações e  depois de adquirido (ainda que de forma muito controversa) o direito de usar a minissaia ainda passavam seus dias babando em meninos posando em serviços domesticos!" Nenhuma de nós coloca foto lavando banheiro, é feio e comum que uma mulher lave o banheiro. Um grande viva a civilização judaico-cristã-ocidental!" E depois ainda rindo ficou se perguntando que graça tinha o céu do islã pra uma mulher bomba, que teria que passar a eternidade inteira aturando setenta virgens!      Não, o mundo era mesmo machista. E houveram boatos que a humanidade estava na pior. Mas ainda assim olhando aquela foto ela teve certeza:podia piorar.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Tia Márcia prevendo o futuro...

Uma vez, eram os anos 90 ainda e eu devia ter por volta dos sete ou oito anos, estava na casa da minha tia Márcia, que ficava o dia inteiro na cozinha ouvindo a radio Glo -bo-bo-bo!!!! (esse era o eco da vinheta...quase o seu Creysson) , lavando a louça do almoço, e ouvindo as fofocas do leão Lobo por ai.
Bem ,eram os anos 90 e enquanto eu não estava assistindo o Chaves, eu tava brincando de Banco Imobiliário com a minha prima e minha Tia Márcia ouvindo a rádio Globo.
Eu com minha calça bailarina e minha prima com shortinho do tchan, jogando Banco Imobiliário, ela devia ter por volta dos seis anos também, mas me roubava no jogo que era uma beleza. 
Enfim, estavamos lá naquela tarde quando em algum momento da fofoca da tarde o Leão Lobo contou pra tia Márcia pelo rádio que o César Filho e a Angelica tinham terminado. Eu não via nada demais naquilo, por que a Angelica tinha um programa muito legal no SBT e a vida pessoal dela pouco me importava, eu fazia alguma ideia de que ela namorava o cara que dava os resultados do papa-tudo, mas até ai nada me dizia. Mas tia Márcia riu muito eu bem, me lembro, quando ouviu a tal noticia e soltou uma perola da qual jamais me esqueceria."Quem dorme com criança acorda mijado..." . Eu nem entendi nada. Mas também, em 1996 quem poderia prever....

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Boias são metáforas...

(tem gente ainda me esperando pra contar, as novidades que eu já canso de saber...)

Gosto de pensar
e isso me faz até um bem
que sou uma pessoa forte
alguém que caminha além


por que depois de pensar na vida
depois dessa caminhada
descobri que houve muita coisa 
descobri que não houve nada


Gosto de pensar
e isso até me dá alegria
que eu com dignidade
aprendi a gostar da minha própria companhia


por que depois de sofrer sozinha
o normal a qualquer vivente
encontrei dentro de mim 
uma pessoa diferente


diferente dessa gente
que depois de um naufrágio
não resiste a maré
e nada desesperada
se agarrando a primeira boia que houver


pois que nadei sozinha
enfrentei  mar revolto
e o céu tempestuoso
ás vezes muito quietinha


Cheguei então a praia e não acreditei, 
quando olhando de volta pro mar vislumbrei
posso nadar novamente em outros mares 
se um dia quiser
por que depois da tempestade
o que há de ser uma maré?


Quem ancorado na boia se firma
ancorado na boia se finda.
Não aprende a nadar jamais
Passa a vida no vislumbre do cais
Querendo muito chegar
Mas longe de qualquer lugar.




àqueles que sofrem a conta gotas
para evitar a dor maior
jamais saberão
que quando a batalha termina
quando a luta se finda
a terra firme que o espera
é sem duvida
a maior vitoria da guerra...

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A Questão Mourisca -parte 1



            A viagem era um tédio, passando os dias trancada esperando a hora que Marido chegaria para me dar alguma atenção, as outras mulheres também não se enturmavam muito, e eu sabia de cor o numero de tabuas do teto da cabine.
          Toda madrugada o Marido chegava cheirando a cigarro misturado com perfume, mas não bebia, isso ele não fazia hoje vejo, era mesmo um fracote. Não bebia uma gota de álcool sequer, jogava por diversão durante hora e meia( não era dado a noitadas longas) no cassino improvisado e depois voltava para roncar feito um irlandês do meu lado a noite toda, enquanto eu chegava  chorar de chateação.
             Claro que a minha idéia não foi das mais originais, mas resolveu o problema da viagem como nunca, e hoje tenho até um pouco de nostalgia. A principio foi mesmo curiosidade, eu arrumei uma calça e uma camisa com um dos artistas da classe econômica, haviam alguns circenses por ali, e acabei descendo um pouco as escadas do navio, as roupas me foram muito úteis até por que do auge dos meus dezessete anos (já três de casamento), eu passaria facilmente por um púbere rapaz imberbe. E naquela noite mesmo, logo depois de Marido pegar no sono quem se levantou fui eu. 
           A nuvem de fumaça tomava conta do ambiente de forma espessa, e na mesa ao lado eu pude ver que algumas das putinhas de sempre rondavam Vinicius. Seria engraçado tirar algum dinheiro dele no pôquer, o tédio tinha dessas, também te ensina a arte da observação. Me fingi de estrangeiro, não dominava o idioma,  forjei uma voz falsa e me pedi pra sentar. Fazia as apostas em silencio e depois da primeira vez que ganhei uma das putinhas veio sentar-se ao meu lado.
           O maldito sorria satisfeito por encontrar adversário a altura no jogo.A fumaça ia, eu tomei um gole pequeno de pinga, e continuei jogando. Noites assim se seguiram por vários dias. Ainda tínhamos alguns dias até o destino final.
            Aquela noite em que beijei o Vinicius foi hilária, não por que ele achou primeiramente que havia sido beijado por um homem, mas por que toda a movimentação que se deu em seguida me fez lembrar alguma comedia pastelão.
            Depois de jogar, a essa altura éramos parceiros, ele já ia saindo quando e  fui em seu encalço enquanto ele ria sozinho apagando o cigarro “Você é bom rapazinho.Fala pouco e joga bastante.Isso é importante.” Eu afirmei com a cabeça eu fui saindo, quando entramos pelos corredores em penumbra das cabines eu fiz menção de dizer algo ele se surpreendeu e eu o beijei.Depois soltei os cabelos, mas ele continuava com os olhos saltando das órbitas de tanto susto então mostrei os peitos, que era pro caso dele achar que eu era homem mesmo e querer me bater, mas ele ainda tava surpreso, decerto achou que eu era alguma aberração sei lá, depois ele riu “eu jamais desconfiaria” . E saindo dando risada. No outro dia ele foi jogar de novo eu também fui, ele não disse palavra sobre o assunto e na noite seguinte jogamos menos para que pudéssemos nos divertir mais na cabine dele.
            Foram varias noites dessas e eu acabei chegando em terra firme grávida do meu primogênito. E foi aí que se deu a questão.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Poema do Homem que Não Existe

O que homem que quiser
ganhar minha atenção
Terá de ser o primeiro
a aprender a dizer não.

Não fico muito contente
com aquele cara presente
sempre com a boca sorridente
a dizer sim condescendente.

Na verdade o que vou dizer
É que estou cansada
desses homens que me deixam correr.

Ae eu corro, eu fujo
E pra voltar não faço esforço
Se você com tudo concorda
Não é digno do meu reforço.

Por que ando preguiçosa
Desses vale paraibanos parados
A orbitar pelas baladas
Incapazes de formar frase descente
Se fingindo de inteligente.

Concluindo o que penso
Não gosto de homem que pede beijo
Quem pede se subjuga
Quem pede mostra ter medo

Se risco do tapa bem dado
É maior que a expectativa
De um grande beijo roubado
É melhor que volte pra casa
Dormir com a mamãe do lado!
=)

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Verão no Aquário * ou O Buda de Camiseta do Fiuk

-Então não sei mesmo o que acontece com as pessoas, mas acho que tenho uma certeza na vida...
- A morte?
-Não. A de que meu nome é mais falado naquele lugar do que gente pedindo pão francês na padaria.
-hahaha, será?
-Certeza. Até por que se eu bem me lembro, a diversão é olhar para fora e contar as modas novas. Como se tudo não passasse de um grande aquário, gigante,onde as pessoas estão presas olhando para fora esperando sua chance de sair.E esse negocio do aquário te pega tão de jeito que você demora a se dar conta que saiu. E quando alguém consegue sair, há o ressentimento de quem ainda não conseguiu escalar as grandes paredes de vidro. Você sabe..
-Mas o que isso tem a ver com o que tem falado?
-Você sabe que cobras também moram em aquários, não?
- Sim, me lembro de uma vez no Butantã, do medo ao caminhar pelos corredores , mal me movia, com medo de derrubar um daquele aquários, um daqueles vidros... não sei, foi uma sensação horrível...
-Você sabe que por muito tempo caminhei assim e não vou negar, com os braços encolhidos e os movimentos tolhidos, tamanho medo de despertar as cobras.
- Ah mas não me venha dar uma de ratinho desprotegido , até onde eu sei, o veneno, bem, esse não te falta.
-Sim, não falta veneno e não falta vergonha na cara também, você sabe,  para se destilar veneno é melhor que tenha bons antídotos guardados no bolso, mas eu ultimamente acabei gastando os meus por ai, então fiquei sem nenhum. Dai to nessa ressaca de veneno, que não sei se rio ou choro mediante as coisas que ando vendo.
-Nem ri nem chora, sei lá. Ignora.
-Ignoro. É uma boa ideia, você é sábio como um Budazinho, vou esfregar essa sua barriga e isso me trará muita sorte.Se não sorte, um pouquinho de diversão! Acho que eu devia trabalhar mais um pouco.
-Trabalhar? Mais? Uma que você não precisa tanto assim de dinheiro e mal tem tido tempo de decorar suas falas direito.
-Se tem uma coisa que adoro é ficar irritada com as questões do meu trabalho por que são superficiais de tal forma que me permitem não pensar mais em muita coisa e ao chegar em casa estou tão exausta que desabo na cama em sono tão negro e profundo, uma cegueira doce temporária, que me apaga a memoria e leva tudo embora.
-E o tupperware da sua mãe? Queimou?
-Queimou nada, deu uma derretidinha, mas na verdade nem tinha muito ali pra se queimar. Meia duzia de fotos e umas cartinhas tão falsas e distantes que me soaram como aqueles cartões que você compra nas lojas de conveniência do posto de gasolina quando esquece o aniversário de alguém  e precisa de um presente de emergência para não ficar feio. Acho que foi bem por ai, nada como uma noite dessas para trazer a tona essas definições, falso e distante como cartões de lojinhas de conveniência!hahaha tô ficando impagável!O que mais achei engraçado depois foi que mesmo mediante todo o espetáculo dramático no quintal ela só pôs a cara na janela e gritou"vai queimar minha vasilha!" E nem queimou nada, derreteu só um pouquinho.
-Hahaha. Mas, e  agora?
-Uai, vou comprar outra vasilha para ela assim que melhorar da ressaca de amanhã.
-Isso sim. É caro uma vasilha?
- Nada no 1,99 você compra várias por uma bagatela.
-Baga o que?
-Tela. Bagatela. Coisa barata. Nem me olha com essa cara por que essa gíria nem é da minha adolescência também. minha mãe que fala isso. Bagatela....hahaha engraçado!
- E depois disso tudo?
-Ainda se falará muito. Na verdade se falará enquanto eu der motivos para isso.E provavelmente eu darei por que na verdade acredito que deva ter se tornado algo de muito divertido me maldizer pelos cantos, tem gente que a gente adora odiar, não?
-Isso é bem tipico mesmo.Vejo isso na escola o tempo todo.
-Na escola, meu deus do céu,não diga essas coisas por que me sinto uma pessoa ruim. Isso sim me faz sentir uma pessoa ruim!
- Para com isso, que besteira. Eu acho que a gente devia ir pra outro canto.
-Eu achava também por que esse assunto já rendeu.
- Na verdade acho que rendeu mais que devia, o mundo esta cheio de coisas melhores a se fazer, vamos?
- Você é um bom menino! Vamos, antes que roubem meu carro e fiquemos a pé pra sempre.
-hahaha pra sempre por que? Se roubarem seu carro você nunca mais poderá andar em outro?
-Se roubarem meu carro fico sem teto! Se minha mãe já fez escândalo pelo tupperware imagine pelo carro?
-Faz sentido, faz sentido....
-Ow tia, vê a conta ai pra gente!










* Nome de um romance da afamada escritora Lygia Fagundes Telles.