terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

sabotagem


Auto Sabotagem é meu nome do meio.
Eu em festas olho de longe o Laureano.  Diz a lenda que o tenho sentado na palma da minha mão, sossegado como uma criança comendo seu lanche na hora do recreio, balançando as perninhas e eventualmente bebendo cerveja num canto qualquer enquanto observa a movimentação,fazendo o que ele faz de melhor que é usufruir do rosto adorável que Deus deu pra ele. Uma inspiração artística interessante. No começo eu ainda o achava mais bonito, depois não sei se me acostumei ou se foi culpa da leve corcunda a se levantar dia após dia sobre aquelas costas. Ele senta errado há tantos anos que é capaz de virar o Quasímodo com a cara bonita na terceira idade. Lohaine aposta que será gordo. Como comedor inveterado que é , não duvido. Laureano gosta mais de comida que de sexo, quando algo lhe agrada o paladar seu semblante chega a ser tão obsceno que seria queimado na fogueira se comesse em público na idade média. Corcunda ou não, é um layout que pretende ser perfeito e se dá por satisfeito assim sendo.
Auto sabotagem é meu ascendente
Na noite de ano novo a japonesa louca de entorpecentes sentou-se ao lado dele e não saiu mais. Dizia aos quatro cantos que era lésbica, mas aquela noite, meus amigos, Feliciano se por lá estivesse sairia pela orla da praia gritando eureca por ter encontrado a cura gay. Observei de longe e tomei a Lohaine pelo braço "venha comigo para outro canto Lô, vamos das paz ao Laureano para que ele possa fazer o que bem entender!" como se assim eu desse permissão para que o verdadeiro eu dele saltasse para fora (ou o que eu entendo ser o verdadeiro eu dele no caso). O que seria o verdadeiro eu dele senão alguém sem a menor cerimônia em beijar outras bocas, com o mesmo semblante obsceno que expressa quando come uma picanha mal passada? O outro eu do Laureano sou eu de calças compridas, que não assumo por que tenho pudores católicos que não me abandonam, mas acredito que ele um sem vergonha ululante.
Arrastando Lohaine para outro lado da praia ela só faltou me dar Rivotril com olhos "Você está maluca, Raiza!" imagina, para Lohaine pareceu o mais perfeito absurdo que Laureano beijasse outra moça na festa estando eu nela. Acontece que a humanidade já teve coragem de fazer coisa muito pior, beijar uma moça numa festa enquanto sua namorada se diverte pulando sete ondas no ano novo parece brincadeira de criança. Tão plausível, Laureano fala manso com todas as mulheres que encontra pela frente e eu me pergunto qual se é charme ou excesso de erotismo mal resolvido. Ele só vê sentido na vida se fizer sexo. Sorte dele que vê sentido em alguma coisa.
  Eu de minha parte vou me dando a ele por pura vaidade ou a satisfação simples de que estou fazendo algo direito, eu não tenho feito muita coisa ultimamente então é justo que me dedique a isso. Nada de novo sob o sol. A humanidade trepa do mesmo jeito desde que éramos primatas,  somos os mesmos e vivemos como nossos pais, literalmente. Somos chatos, por isso nenhum extraterrestre  quer papo com a gente. Onde eu estava? Ah sim, sentada no sofá da sala, acendendo um cigarro atrás do outro esperando o Laureano ser um imbecil e transar com alguém da faculdade, do trabaho, da rua dele, do bate papo uol se é que isso ainda existe.
 Olha mas que vivência mais sublime essa a que me submeto, a espera do bote venenoso  do meu cônjuge, com uma ampola cheia de antídoto, tensão e desconfiança nas mãos. Mas o Laureano não me decepciona. O Laureano é uma decepção.

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